Uma denúncia anónima serve. Aberto o processo, uma oportuna fuga para a comunicação social coloca o político sob suspeita. Vagarosa, a investigação avança com base em testemunhos politizados, escutas telefónicas truncadas e boataria com fartura, misturados com factos relevantes. Os incompetentes procuradores, pressionados e displicentes, não encontram nas diligências matéria acusatória, mas a populaça quer correspondência com o que viu na televisão e nos jornais. A acusação, mal formulada, segue em frente. O arguido mente e diz que confia no sistema, enquanto critica a comunicação social e a violação do segredo de justiça. Se tiver sorte, escapa com o arquivamento do processo. Se tiver azar, os acusadores forçam um julgamento de fachada. Como a acusação está mal fundamenteda, basta entupir o sistema com incidentes processuais até que surja a prescrição, a anulação ou a absolvição. A indignação da opinião pública sobe de tom, alimentada pela imprensa. Mas já não interessa. O sistema judicial cumpriu o objectivo face ao político: a eterna condenação na praça pública.