Tuesday, November 24, 2009

Fala, fala, fala

Seria interessante verificar, num dos estudos métricos que a ERC faz sobre a comunicação social, quanto tempo o primeiro-ministro despendeu a falar sobre processos judiciais em que o seu nome está envolvido, ao invés de se pronunciar sobre a governação do país. 

Monday, November 23, 2009

SOS cagarro

A quem pudesse pensar que os “cagarros” estariam em vias de extinção, causaria supresa o avistamento de cerca de 350 espécimes na capital, no passado fim de semana — o encontro nacional de marienses. O que antes era um irreverente convívio de juventude expandiu-se e institucionalizou-se (presenças de presidente da câmara, director regional da juventude, representante especial da República). Abrange todas as gerações, traz ao continente a tradição gastronómica e musical, divulga a cultura local contemporânea e, sobretudo, faz com que haja um elo de ligação à ilha do Sol. E, consequentemente, promove a vontade de retorno às origens — temporária ou definitiva. Um SOS para uma ilha cada vez mais desertificada.

Tuesday, October 20, 2009

Asfixia jornalística

Liberdade de Imprensa, Portugal cai do 16º para o 30º lugar este ano - RSF

Wednesday, October 14, 2009

Nem de encomenda

Perante a perplexidade dos espectadores, pouco interessados em denúncias de fontes, rivalidades de jornais e encomendas partidárias, o Prós e Contras de anteontem dedicou-se a debater, durante mais de uma hora, o caso das “escutas”. No meio do destilar de rivalidades pessoais e de justificações atabalhoadas, ninguém abordou a questão principal. Um jornal publica que a Presidência suspeita de estar a ser vigiada pelo Governo — notícia em qualquer parte do mundo. O periódico rival, em vez de seguir a pista, decide delatar a fonte da história. E, para cúmulo, ainda é aplaudido por parte da classe profissional. Carl Bernstein e Bob Woodward, a saberem da história, devem dar graças por não trabalharem pelos parâmetros portugueses: se os rivais do Washington Post fizessem o mesmo que o DN no caso Watergate, Nixon nunca se teria demitido. Mark Felt, alto funcionário do FBI que expôs a paranóia presidencial, seria logo denunciado por estes “gargantas fundas” do jornalismo português.

Tuesday, October 13, 2009

Olhar o futuro

Ufano como sempre, Carlos César clamou vitória nas autárquicas a nível Açores, pelo ineditismo da maioria das câmaras conquistadas pelo PS. A ilha do Sol, em sentido contrário, libertou-se do feudo socialista que imperava há 30 anos e (espera-se) do consequente marasmo económico, social, cultural e político. Nem as promessas, acordos, requalificações, apoios, inaugurações, cedências e protocolos anunciados pelo governo regional conseguiram travar a vontade de mudança dos cidadãos, saturados do aparelhismo tentacular socialista. Factor essencial para que uma equipa de independentes integrados na lista do PSD, com propostas alternativas e uma campanha profissional, vencesse as eleições — provando que a democracia funciona quando as pessoas estão motivadas e conscientes do seu papel cívico. Como se escreveu aqui anteriormente, não existe progresso sem mudança. Está lançada a premissa para que a ilha do Sol possa olhar o futuro com optimismo. 

Friday, October 9, 2009

Antes de tempo

Da galeria de notáveis que foram galardoados com o prémio Nobel da Paz, Obama terá sido o único que o recebeu por antecipação. Nem é o inerente carácter belicista de qualquer presidente americano que causa estranheza no prémio. É a simples falta de qualquer realização concreta de Obama antes ou depois de iniciar o mandato — salvo um conjunto de boas intenções diplomáticas. Talvez o jurí do prémio deva sair da reclusão escandinava e voltar a distinguir alguém que tenha contribuído com algo real para a pacificação de zonas em conflito. 

Wednesday, October 7, 2009

Alternância democrática

Tornou-se um lugar comum afirmar que o progresso é impossível sem mudança. Por este facto, a alternância democrática deve suceder em qualquer sociedade, independentemente do partido que ocupa o poder. Na ilha do Sol, uma força partidária governa a autarquia há 30 anos — com os resultados que todos podem avaliar. Como alternativa, existe um grupo de cidadãos, a maior parte independentes, que apresenta um ambicioso conjunto de propostas para o futuro. Uma mudança necessária para retirar a ilha da aparente estagnação social, económica e política. E implementar uma nova perspectiva de progresso. 

Tuesday, October 6, 2009

No campo de Santana

O sempre veemente Miguel Sousa Tavares escrevia, em 2004, que se Pedro Santana Lopes chegasse a primeiro-ministro, emigraria para o Brasil. Além de ter permanecido na pátria lusa, assiste, em 2009, a uma recandidatura do enfant terrible à autarquia da cidade onde reside. Mas os intentos de abandonar Lisboa, caso Santana seja reeleito, parecem estar refreados. “(...) a verdade é que o oiço propor várias coisas que me parecem tão evidentes quanto necessárias e simples: repor o trânsito normal na zona do Cais do Sodré/ Terreiro do Paço; manter o aeroporto da Portela em Lisboa; impedir a terceira travessia rodoviária; não aceitar a expansão do terminal de contentores de Alcântara; não oiço nada disto à candidatura de António Costa. E aí está o dilema instalado: votar em pessoas ou votar em programas?” Uma singular análise de um anti-santanista primário, no Expresso.

Wednesday, September 30, 2009

Conselho de Estado

Cavaco Silva, por estes dias um homem isolado e acossado, terá escrito na solidão do gabinete do palácio de Belém a abstrusa declaração ao país, não a tendo revelado previamente a ninguém por mera desconfiança. Caso contrário, qualquer conselheiro político lhe diria o seguinte. “Sr. Presidente, com todo o devido respeito, não pode fazer esta declaração. Além de ser longa, confusa e ambígua, tem vários erros crassos. Irá abrir uma guerra desnecessária com o governo, antes de ter de indigitar o primeiro-ministro; irá revelar que está embrenhado e atento a tricas partidárias; irá demonstrar que pensa ingenuamente que o sistema de e-mails da presidência tem falhas; irá rebaixar-se a entrar numa guerra de jornais alinhados partidariamente; irá lançar dúvidas sobre as competências dos membros da sua Casa Civil; e, por último, irá demonstrar uma imagem de desorientação, falta de bom senso, até de alguma paranóia, o que é fatal para o chefe de Estado. O melhor que tem a fazer é dizer que não tem elementos que lhe permitam suspeitar de qualquer vigilância do Governo e matar o assunto.”

Tuesday, September 29, 2009

O submundo da política

Nunca os bas fonds da política portuguesa estiveram tão repletos como na noite eleitoral de domingo. Na sede de campanha do PSD, no hotel Sofitel, na avenida da Liberdade, o estado-maior laranja refugiava-se numa sala subterrânea (leia-se cave), escoltada por dois seguranças. A poucos metros de distância, no hotel Altis, na rua Castilho, o PS escolhia uma sala subterrânea (leia-se cave) para os discursos de vitória. À superfície, eram poucos (leia-se nenhum) os cidadãos não-alinhados partidariamente (leia-se sem cartão de militante) que saíram para celebrar a democracia nas sedes de campanha. A pouca mobilização impediu, até, os habituais festejos socialistas no largo do Rato. A política é, cada vez mais, um meio pouco frequentável. 

Friday, September 25, 2009

Este país dava um filme

Dois dias faltam para as eleições e o país mediático está enredado num filme de espionagem de série B. Sucede que quem vai votar no domingo desconhece o argumento, não se identifica com as personagens e prefere fitas que reflictam a vida real: desemprego, salários baixos, endividamento, etc. E outras dificuldades do dia-a-dia nas áreas da saúde, educação, justiça, mobilidade, que uma campanha pouco esclarecedora e recheada de casos não abordou. Injustamente, o foco deixou de estar no primeiro-ministro para estar na oposição — por motivos absurdos. A governação que está a ser julgada é a de José Sócrates. Cabe aos eleitores decidir se este filme socialista merece o final ou uma sequela. E a pergunta a que o “povo” terá de responder é, de facto, muito simples: o país está melhor hoje do que há quatro anos e meio? Se a resposta for negativa, substitua-se o cavalheiro. 

Wednesday, September 23, 2009

Incoerência insular

De passagem pelas ilhas, Sócrates e Ferreira Leite pensaram estar em rochedos inóspitos, sem contacto com o exterior. O primeiro-ministro, nas ilhas de bruma, foi de um populismo insuportável, ao pedir votos por ter “beneficiado” os açorianos na lei das finanças regionais; a líder da oposição, na pérola do Atlântico, foi de uma demagogia intolerável ao prometer acabar com a “discriminação” dos madeirenses sobre a mesma matéria. Ambas as frases para perplexidade dos insulares do arquipélago oposto ao de onde as declarações estavam a ser proferidas. Claro que, na busca do voto, a visita à outra região autónoma exige novo discurso. Se a coerência é difícil em política, quinze dias de campanha confirmam a impossibilidade.

Tuesday, September 22, 2009

Porreiro, pá

Comentadores profissionais e bloggers amadores (ou vice-versa) abalançaram-se, nos últimos meses, a longas dissertações sobre os quatro anos e meio de governo Sócrates. Nenhum desses insuportáveis textos se aproxima, sequer, da lucidez e acutilância do balanço feito por Augusto Cid. O ilustre faialense lançou o livro Porreiro, Pá, uma compilação de cartoons sobre a era Sócrates, publicados em vários jornais. Prefaciada por João Pereira Coutinho, a sequência exibe o sinuoso percurso do primeiro-ministro, pista para compreensão do estado actual do país. Excepcionalmente, o autor substitui o traço pelas palavras: “A presente peça em palco, vai para mais de quatro anos, saldou-se por um monumental fracasso de bilheteira... apesar do elenco insistir em pretender levá-la de novo à cena!”

P. S. – O lançamento do livro teve limitadíssima repercussão na comunicação social. Como duas outras elucidativas obras sobre o primeiro-ministro: José Sócrates, o Homem e o Líder, de Rui Costa Pinto; e o Dossiê Sócrates, de António Balbino Caldeira. Asfixia democrática ou auto-censura?

Friday, September 18, 2009

O nosso Watergate

Poderia ser o nosso Watergate: o presidente da República suspeitaria de estar a ser espiado pelo Governo. Infelizmente, houve pouca semelhança, na imprensa portuguesa, com o tratamento que o Washington Post daria à “notícia”. O Público (anti-poder) revela-a um ano e quatro meses após a alegada denúncia do assessor da Presidência; o DN (pró-regime) preocupa-se mais em denunciar a fonte — um ex-director do jornal — do que em averiguar a verdade dos factos. Do que só se pode concluir que existe uma instrumentalização dos dois títulos de "referência". Uma choldra jornalística, que atinge órgãos de soberania, em clima de campanha eleitoral — o que explica tudo. Esta decadente estória sobre os bastidores do jornalismo português faz lembrar o velho ditado americano, passe o ridículo da comparação. "As notícias são como os hambúrgueres: ambos sabem bem, desde que não saibamos como foram feitos."

 

Thursday, September 17, 2009

Asfixia jornalística

Nos programas eleitorais, extensos ou sintéticos, existem sempre referências à comunicação social — área que, num estado liberal moderno, deveria estar fora de qualquer intenção programática. O PS pretende “zelar pela oferta, universal e igual, de uma diversidade substancial de serviços de comunicação social”. O PSD procurará “garantir um mercado de comunicação social livre, inovador e aberto a novos suportes e conteúdos”. Haverá, somente, um caso em que uma referência ao sector se torna indispensável, a bem da liberdade de imprensa. “Defenderemos uma clarificação e limitação das competências da ERC que incidem sobre conteúdos editoriais de rádios, televisões, imprensa e outros órgãos de informação (…)”. Alínea constante do programa “laranja”, em sequência de quatro anos e meio de legislação asfixiante para a actividade jornalística — com os cumprimentos de Augusto Santos Silva.